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De indicador à estratégia: como churn e marketing caminham juntos para o crescimento dos provedores

  • há 2 dias
  • 7 min de leitura

Por Gláucia Civa, Diretora Executiva da Aceká Comunicação Estratégica



Em mais de 20 anos de carreira, já atendi e atendo muitos provedores de Internet. E quem trabalha próximo a este setor sabe que conquistar um cliente é apenas uma parte da equação. A outra, vital para a operação, é fazer com que ele permaneça. Nesta estratégia, churn não é somente um indicador, mas um obstáculo a ser vencido.


Para cumprir essa missão, é preciso entender que o cancelamento também é um problema de marketing.

Como assim: Assim: o cliente não acorda em uma manhã qualquer e decide cancelar sua internet sem que nada tenha acontecido antes. Na maioria das vezes, existe uma história por trás dessa decisão. Uma sequência de pequenos incômodos, experiências ruins, problemas técnicos, dificuldades de atendimento, cobranças mal conduzidas ou simplesmente a sensação de que a empresa deixou de entregar o valor esperado.


O pedido de cancelamento é apenas o último capítulo.


O verdadeiro desafio está em identificar os capítulos anteriores.


O cliente costuma avisar antes de ir embora


Ao acompanhar de perto empresas de tecnologia e provedores de internet, percebo que muitas organizações ainda trabalham a comunicação com o cliente de maneira excessivamente reativa.


O consumidor reclama, a empresa responde.


O consumidor pede desconto, a empresa negocia.


O consumidor solicita cancelamento, a empresa tenta reter.


Mas e se fosse possível começar essa conversa antes?


Hoje, dados de diferentes pontos da operação podem revelar sinais importantes de insatisfação. Aumento de chamados, problemas recorrentes de conexão, atrasos no pagamento, queda nas avaliações de atendimento, reclamações e mudanças no comportamento do consumidor podem, quando analisados em conjunto, indicar que determinado cliente está se afastando.


Modelos de análise preditiva podem transformar esses sinais em um indicador de risco, permitindo priorizar os clientes que precisam de atenção antes que o cancelamento aconteça. Soluções voltadas especificamente ao mercado de telecom, por exemplo, já trabalham com informações de ERP, atendimento, NPS e dados técnicos de rede para construir uma visão mais completa do comportamento do assinante.


Como especialista com décadas de vivência nessa área, afirmo sem medo de errar que essa é uma mudança importante de perspectiva: retenção começa com escuta.


Marketing não termina quando a venda acontece


Existe uma tendência de pensar marketing como uma área responsável por gerar leads, fortalecer a marca e apoiar vendas.


Tudo isso continua sendo fundamental. Mas, em mercados de receita recorrente como telecom, a experiência posterior à venda também precisa fazer parte da estratégia de marketing.


Afinal, de que adianta investir em mídia, campanhas, conteúdo, eventos e ações comerciais para conquistar novos assinantes se uma parcela relevante da base está saindo pela porta dos fundos?


O cliente que cancela representa mais do que uma receita mensal perdida.


Representa também o custo de aquisição que deixa de gerar retorno, a redução do lifetime value, uma oportunidade de indicação que desaparece e, dependendo da experiência vivida, até mesmo o risco de uma avaliação negativa ou de comentários que influenciem potenciais consumidores.


Por isso, churn, experiência do cliente, reputação e marketing estão muito mais conectados do que normalmente se imagina.


A cobrança também comunica a marca


Outro ponto que merece atenção é a inadimplência.

Cobrar é necessário. Mas a maneira como uma empresa cobra também faz parte da experiência do cliente.


Uma régua de cobrança automatizada pode lembrar o consumidor antes do vencimento, facilitar o pagamento após o atraso e disponibilizar Pix ou boleto diretamente pelo canal de comunicação utilizado pelo cliente.


Parece uma questão puramente financeira, mas não é.


Uma cobrança clara, conveniente e respeitosa comunica organização.


Uma cobrança confusa, insistente ou excessivamente agressiva comunica outra coisa.


No marketing, sabemos que cada ponto de contato constrói percepção de marca. O boleto, o WhatsApp, o atendimento técnico, a pesquisa de satisfação e a resposta a uma reclamação também são momentos de branding — mesmo que não tenham uma peça publicitária sequer envolvida.


NPS não pode virar apenas um número bonito no dashboard


O mesmo raciocínio vale para o NPS. Não adianta perguntar ao cliente se ele recomendaria a empresa, registrar a nota e apresentar um gráfico em uma reunião mensal. A pergunta realmente importante vem depois: o que vamos fazer com essa resposta?


Um cliente que dá uma nota baixa está oferecendo uma informação valiosa. Ele está dizendo que existe alguma coisa na experiência que não está funcionando.


Em operações mais maduras, a pesquisa pode ser contextualizada — depois de uma instalação, de uma ordem de serviço ou em determinados momentos da jornada — e uma avaliação negativa pode gerar uma ação específica.


É aí que NPS deixa de ser pesquisa e passa a ser ferramenta de relacionamento.


E relacionamento, no fim das contas, é território do marketing.


Personalização exige dados integrados


Existe, porém, um obstáculo recorrente nos provedores: as informações estão espalhadas.


O ERP sabe quanto o cliente paga e se existem faturas em aberto.


O sistema de atendimento sabe quantas vezes ele entrou em contato.


O ambiente técnico pode indicar problemas de conexão.


O omnichannel registra conversas.


O NPS mostra sua percepção sobre a experiência.


Separadamente, cada dado conta uma pequena história.


Quando eles são integrados, podemos começar a entender a história completa.


É possível, por exemplo, perceber que um cliente que está inadimplente há algumas semanas também teve problemas técnicos recentes e apresentou uma avaliação ruim depois de um atendimento.


Essa combinação é muito mais relevante do que qualquer um desses indicadores isoladamente.


E é justamente esse tipo de integração entre ERP, canais de relacionamento e dados técnicos que permite criar estratégias mais inteligentes de retenção.


O marketing precisa sair do calendário e entrar na jornada


Essa discussão também muda a forma como pensamos o planejamento de marketing dos provedores.


Durante muito tempo, o calendário foi organizado em torno de campanhas: Dia das Mães, Black Friday, volta às aulas, lançamento de plano, campanha de indicação, aniversário da empresa.


Essas ações continuam tendo seu espaço.


Mas o marketing de relacionamento precisa olhar para outro calendário: o calendário da jornada do cliente.


Quando ele completa três meses, como está sua percepção?


Depois de uma instalação, ficou satisfeito?


Após um atendimento técnico, o problema foi realmente resolvido?


Está há meses sem interagir com a empresa?


Começou a atrasar pagamentos?


Está utilizando mais o serviço e talvez tenha potencial para um upgrade?


Ou está apresentando vários sinais simultâneos de que pode cancelar?


A comunicação deixa de ser simplesmente "mandar uma campanha" e passa a ser falar com a pessoa certa, no momento certo e pelo motivo certo.


Essa é uma das grandes oportunidades que dados, automação e inteligência artificial oferecem ao marketing.


IA não substitui relacionamento. Pode torná-lo mais inteligente.


Existe uma preocupação legítima de que a automação transforme o relacionamento em algo frio e impessoal.


Na minha visão, o problema não está na tecnologia. Está em como ela é utilizada.


Automatizar uma cobrança simples pode liberar uma equipe para resolver um problema mais complexo.


Automatizar uma pesquisa de satisfação pode permitir que o time identifique rapidamente quem precisa de atenção.


Usar inteligência artificial para identificar clientes em risco pode fazer com que o profissional de retenção deixe de gastar horas procurando informações e concentre seu tempo justamente nos casos que exigem intervenção humana.


O princípio é simples: a tecnologia cuida do repetitivo para que as pessoas possam cuidar do relacionamento. Essa combinação entre automação e atuação humana também aparece como uma das principais propostas das novas plataformas de retenção voltadas aos provedores.


Reter também é uma estratégia de crescimento


Quando falamos em crescimento, normalmente pensamos em conquistar novos clientes. Mas existe outra forma de crescer: perder menos.


Se uma empresa investe continuamente para adicionar assinantes à sua base, mas também perde uma quantidade significativa deles todos os meses, parte importante do esforço comercial está sendo utilizada apenas para repor o que foi perdido.


Por isso, a discussão sobre churn precisa chegar à mesa do marketing, da gestão e da área financeira.


Não basta saber quantos clientes cancelaram.


É preciso entender quem cancelou, por quê, quais sinais apareceram antes, quanto aquela perda representava em receita e quais ações poderiam ter evitado o desligamento.


Calculadoras de churn utilizadas no mercado já permitem relacionar quantidade de assinantes, ticket médio, taxa de cancelamento e lifetime value para dimensionar financeiramente o impacto da perda de clientes.


Quando colocamos esses números diante da gestão, churn deixa de ser uma porcentagem em um relatório.

Ele passa a representar dinheiro.


O próximo passo é transformar informação em ação


Os provedores brasileiros conhecem muito bem os desafios de operar em um mercado competitivo. Margens pressionadas, investimentos constantes em infraestrutura, concorrência local, clientes mais exigentes e equipes que precisam fazer cada vez mais com recursos limitados fazem parte da realidade do setor.


Por isso, não acredito que a resposta esteja simplesmente em contratar mais pessoas para acompanhar manualmente cada cliente. Também não está em disparar mais mensagens. Está em usar melhor as informações que a empresa já possui.


Identificar sinais.

Entender comportamentos.

Segmentar a base.

Automatizar o que é repetitivo.

Priorizar o que exige intervenção humana.

E, principalmente, medir o resultado.


Porque uma estratégia de retenção madura precisa responder perguntas objetivas: quantos clientes foram identificados como risco? Quantos foram recuperados? Quanto de receita foi preservado? Quais motivos mais levam ao cancelamento? Quais ações funcionam melhor?


Quando essas respostas estão disponíveis, o marketing deixa de trabalhar apenas para gerar demanda e passa a participar diretamente da construção de valor ao longo de toda a jornada.


O cliente não deveria precisar pedir para ser ouvido

Como profissional de comunicação e marketing que acompanha de perto a realidade de muitos provedores de internet, vejo uma oportunidade enorme nesse movimento.


O setor já acumulou uma quantidade impressionante de dados sobre seus clientes.

O desafio agora é transformar esses dados em relacionamento.


Porque, no final, retenção não é convencer alguém a ficar depois que ele decidiu ir embora.

É perceber que alguma coisa mudou.

É ouvir antes da reclamação.

É resolver antes do cancelamento.

É comunicar antes que o silêncio vire insatisfação.

E é entender que, em um negócio baseado em receita recorrente, cada cliente que permanece também é resultado de uma experiência de marca bem construída.


Marketing para provedores não é apenas conquistar mais clientes. É conhecer melhor os que já estão dentro de casa e criar condições para que eles tenham motivos para continuar.


Gláucia Civa

Diretora Executiva da Aceká Comunicação Estratégica

Especialista em comunicação e marketing para empresas de tecnologia, telecomunicações e serviços B2B

 
 
 

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